O breve “soviete” português – 18 de janeiro de 1934

“Marinha Grande é um nome escrito a ouro na história do movimento operário português.
Melhor se pode dizer: escrito com lágrimas e sangue”
Álvaro Cunha

NE25ABRIL: A Revolta da Marinha Grande... 80 anos depois
Autoridades na Marinha Grande para reprimir a revolta de 1934

No início de 1934, entra em vigor uma Lei que vem pôr fim aos sindicatos livres, que seriam substituídos pelos sindicatos corporativos, típicos do salazarismo, onde o patronato dominava. Face a isto, os sindicatos resistentes convocam uma greve geral para 18 de janeiro uma greve geral, cujo objetivo maior seria derrubar o ditador Salazar.

Com exceções na Marinha Grande, no Barreiro e em Silves, a greve não conseguiu suscitar uma adesão significativa e saíram por isso, goradas as expetativas dos envolvidos. A repressão foi brutal, mesmo apesar da moderação relatada dos grevistas e sindicalistas. Pouco depois, viriam a ser condenados sumariamente, sendo que viriam mesmo a ser deportados para o campo de concentração do Tarrafal, na Ilha de Santiago em Cabo Verde (conhecido também como o “Campo da Morte Lenta” e que estes operários que iriam estrear).

Todavia, esta derrota dos sindicatos livres e dos trabalhadores viria a ganhar uma dimensão heroica e mítica. Não se pode ignorar que à data as ditaduras fascistas se estavam a consolidar na Europa e que em Portugal a Constituição do Estado Novo tinha sido aprovada em referendo onde quem quisesse votar contra teria de escrever “não” no boletim de voto e onde os votos brancos e a abstenção foram tidos como sendo a favor.

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As constantes descargas poluentes nos rios (Santa Maria da Feira)

(Artigo de opinião originalmente publicado no Jornal N em janeiro 2021)

Ilustração de Rachel Gleaves

O verão passado ficou marcado, no nosso concelho, por diversos atentados ambientais. Houve para todos os “gostos”. Registaram-se fogos, problemas com a recolha de lixo e higienização de estruturas de apoio e ainda as já tradicionais descargas poluentes, das quais se destaca as ocorridas nos rios Uíma e Cáster. Este inverno não tem sido melhor.

Relativamente às descargas poluentes para os cursos de água, se por um lado é verdade que estas têm diferentes origens e não se pode descartar as responsabilidades dos prevaricadores, por outro lado, também não se pode descartar as responsabilidades das entidades responsáveis que deveriam fiscalizar e fazer cumprir a legislação em vigor, mas que pouco têm feito.

Desta feita, o ano começou como acabou, com descargas poluentes no rio Cáster, no centro da cidade de Santa Maria da Feira, exatamente no mesmo local onde no verão já se tinham registado outras descargas. Ou seja, a este nível, pode-se concluir que nada foi feito.

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A Batalha da Rússia (1943)

Esta semana vi, finalmente, o documentário “A Batalha da Rússia” (“The Battle of Russia” em inglês), lançado em 1943 por encomenda do Governo dos EUA. Este documentário é, à vista de muitos, o “maior” da série de filmes que integraram o projeto “Why We Fight”, que visava informar e, acima de tudo, motivar a população dos EUA para a guerra contra a Alemanha NAZI.

Assim, este filme possui vários aspetos interessantes. Um desses aspetos prende-se com a apresentação da Rússia e do seu povo como determinantes para o fim do fascismo na Europa. Recordo que este documentário foi encomendado e financiado pelo Governo dos EUA, pelo que para quem não está contextualizado com o período, poderá parecer muito estranho. Isto porque ainda hoje os EUA têm dificuldade em aceitar, oficialmente, o lugar fulcral dos povos da URSS na vitória sobre o nazi/fascismo na Europa, essencialmente devido a divergências que se acentuaram no pós-guerra. Todavia, à altura, interessava mostrar que o exército NAZI, apesar de bem organizado e equipado, não era invencível, de tal forma que a Rússia lhe havia causado (entre mortos e capturados) mais de 1 milhão de baixas.

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Câmara Aberta na RCF

Painel do Câmara Aberta – Filipe T. Moreira, Alferes Pereira e Paulo Sérgio Gonçalves

O ano começou com um novo desafio, o regresso à RCF, rádio onde me estreei como comentador residente em 2013 e onde volto para integrar o painel do “Câmara Aberta” juntamente com o já residente Alferes Pereira e o habitual moderador, Paulo Sérgio Gonçalves.

Neste programa, que passa em direto às sextas-feiras (às 19 horas) e em diferido aos domingos à tarde, todas as semanas, iremos trazer até si o comentário aos principais temas locais e nacionais.

Para ouvir, basta sintonizar em 104.7fm (distrito de Aveiro) ou no website da rádio (https://radioclubedafeira.pt/), pode ainda ver e ouvir na página do Facebook da RCF, onde passa também em direto (https://www.facebook.com/radioclubedafeira104.7/).

O programa desta semana (8 de janeiro) está disponível em ->  https://fb.watch/2UxYlmHLFn/

Até à próxima sexta-feira!

Pepe Mujica – Leituras de final de ano

Capa do livro

Aproveitando estes dias frios e uma boa lareira empreendi na leitura do recentemente adquirido “José Mujica: Sou do Sul, Venho do Sul. Esquina do Atlântico com o rio Prata” (capa na imagem). Este livro publicado em 2019 pela Akiara books não é mais do que o discurso de José Mujica na Assembleia Geral da ONU em 2013 seguido de comentários ao mesmo de Dolors Camants.

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Unidade de Engenharia 3/UNIFIL – já lá vão 13 anos

Cidade de Tiro, Líbano, 2008 (Filipe T. Moreira)

Foram passando os anos, treze, desde que a Unidade de Engenharia 3 (UnEng3/FND/UNIFIL) integrou a Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL na sua sigla em inglês). Esta era a terceira Força Nacional Destacada (FND) portuguesa a integrar a Força das Nações Unidas presente no território Libanês desde 1978. À UnEng3 seguiram-se mais 8, Portugal teve Unidades de Engenharia no território de 2006 a 2012, num total de 11 que realizaram missões de cerca de 6 meses cada.

Sobre a UnEng3 ainda se pode ler no sítio do então Presidente da República e Comandante Supremo das Forças Armadas Portuguesas, Aníbal Cavaco Silva:

A Brigada de Intervenção, recorrendo a forças do Regimento de Engenharia 3, (Espinho), organizou e aprontou a Unidade de Engenharia 3 (UnEng3/FND/UNIFIL) para iniciar as suas operações no Líbano a partir de 26 de Novembro de 2007.[1]

Esta missão envolveu 141 militares portugueses, maioritariamente originários do Regimento de Engenharia 3 (Paramos/Espinho), que sob comando do então Tenente Coronel Manuel Rebelo de Carvalho haveriam de assumir funções no terreno a 28 de novembro. O aquartelamento foi no Campo Ubique, em Shama, no Sul do Líbano – à semelhança de todas as UnEng.

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Academias Digitais para Pais – o que são?

Conforme se pode ler no site da Direção-Geral da Educação[1] (DGE), o Programa Academia Digital para Pais é uma iniciativa da EDP Distribuição – Energia, S.A. em parceria com a DGE, que visa dar a possibilidade aos pais/encarregados de educação, de crianças do 1º e 2º ciclos, de Escolas que integram o Programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária (TEIP), de frequentar ações de formação promotoras de competências digitais. Com este programa, pretende-se dotar as famílias de competências digitais básicas que facilitem o acompanhamento escolar dos filhos e ainda lhes facultem ferramentas de integração, essenciais na sociedade atual. Pretende-se, ainda, combater as assimetrias socioeconómicas existentes, na iminência de virem a ocorrer situações de contingência que obriguem à suspensão das atividades letivas, em regime presencial.

Ou seja, contrariamente ao veiculado em alguma comunicação social e amplamente disseminado por diversos blogues, este Programa não visa ajudar os pais a ajudar os alunos a fazer os trabalhos de casa. O objetivo é capacitar os pais/encarregados de educação para a utilização de ferramentas digitais (como por exemplo email, browsers, etc…) promovendo assim a inclusão digital.

Acho por isso muito estranho que colegas se tenham deixado levar pelo fervor do momento, ou talvez pela ânsia de terem muitas visualizações nas suas publicações, e tenham por isso ignorado a fonte original da notícia, o site da DGE. Não nos podemos esquecer da fundamentalidade do Pensamento Crítico na vida e ação docente.

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Alguns dados sobre a Covid-19

Muito se tem falado sobre a realidade dos EUA relativamente à Covid-19, isto porque é o país como maior número de infetados (a caminho dos 11 milhões) e de mortes registadas (ultrapassando as 245 mil). Todavia, se analisarmos os dados por 100 mil habitantes podemos concluir que a Bélgica tem dados piores.

A Bélgica tem 5,386 infetados por 100 mil habitantes, enquanto que os EUA têm 3,334. Recorde-se que a população da Bélgica é de cerca de 11,46 milhões. Relativamente a vítimas mortais, os EUA, com uma população global de cerca de 328,2 milhões, registam 75 mortes por 100 mil habitantes, enquanto que a Bélgica regista 125.

Na Europa, relativamente ao número de infetados por 100 mil habitantes, apenas Andorra regista piores valores do que e a Bélgica com 7,4 infeções por 100 mil habitantes. Andorra, apesar de ter apenas cerca de 77 mil habitantes, regista mais de 5 mil infeções.

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Amos Oz – Contra o fanatismo

“O fanatismo é a essência perene da natureza humana, o ‘gene mau’.”

(Amos Oz)

Conheci Amos Oz em 2007[1] aquando da publicação do “How to cure a fanatic” numa coedição da ASA Editores e do Público traduzida por Henrique Tavares e Castro. Nesta edição de bolso o título é “Contra o fanatismo”.

Apesar de já falecido, Amos Oz (1939-2018) é apontado por diversas fontes como o escritor mais influente de Israel (embora não se possa ignorar a crescente influência de Yuri Harari, ainda que em registos distintos), tendo colecionado várias distinções ao longo dos anos. Em 2002 seria mesmo indicado ao prémio Nobel da Literatura e chegou ainda a ser, por diversas vezes, mencionado como candidato ao Nobel da Paz.

Considerando que a sua obra se tende a fundir com a sua vida, confesso que ainda hoje conheço mais do seu percurso pessoal e político do que propriamente o literário que se traduz em 40 livros e em cerca de 450 artigos. No entanto, não posso negar a influência que a leitura do “Contra o Fanatismo” teve em mim, especialmente numa altura em que me preparava (a vários níveis) para integrar uma Missão de Paz da ONU no Líbano enquanto militar do Exército Português.

A leitura do ensaio “Contra o Fanatismo” foi o meu ponto de partida para conhecer o outro Estado de Israel. Um país com antagonismos de pensamentos e visões que em muito extrapolam a religião. Na altura, os meios de comunicação a que tinha acesso não me permitia perceber que existiam movimentos que defendiam uma política diferente da levada a cabo pelo Governo israelita e que havia (e há) uma Israel que procura o seu espaço através da paz e da coexistência. Com esta obra percebi também que os conflitos não são binários e que a moderação e o diálogo são ferramentas muitas vezes desvalorizadas nos media internacionais.

Num tempo de polarização, como o que vivemos hoje, fortemente impulsionado pelas redes sociais (que tendem a levar os utilizadores a sentir o efeito de falso consenso) a leitura crítica do “contra o fanatismo”, mas também dos vários ensaios de Amos Oz deveria ser fortemente encorajada.

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TikTok – o que é e o porquê da polémica?

(Originalmente publicado no Centro da Criança em fevereiro de 2020)

A aplicação TikTok é uma rede social criada em 2016 na China (sendo que na China tem o nome de Douyin). Esta rede social tem tido muito sucesso à escala global, não sendo Portugal exceção, conta atualmente com mais de 500 milhões de utilizadores ativos. Esta aplicação permite aos utilizadores criar vídeos curtos de música e lip-sync de 3 a 15 segundos e vídeos curtos de looping de 3 a 60 segundos.

Até aqui tudo bem. O problema é que este aplicativo tem como idade mínima de adesão os 13 anos. Facto que nos leva a ter uma maior atenção nas questões de segurança.

Daí que esta rede social esteja a ser muito comentada desde há uns meses. Os comentários e críticas devem-se, em certa medida a três questões: à guerra comercial entre vários países, nomeadamente entre os EUA e a China e a tentativa de controlo de informação sensível; às constantes guerras comerciais entre os gigantes da tecnologia que lutam entre si pelo mercado apetecível dos adolescentes e crianças; e, por último, por questões de segurança dos utilizadores. Sendo esta última a que mais nos interessa para este contexto.

Assim, importa salientar que a TikTok já esteve temporariamente banida na Indonésia e India por conter vídeos de cariz sexual. Facto que levou a empresa ByteDance (detentora da TikTok) a efetuar alterações nos seus padrões de segurança e a eliminar cerca de 15 milhões de vídeos da plataforma.

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